quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O garoto da casa em frente

Fiz esse conto ano passado (inclusive, ganhei 1º lugar em um projeto literário por conta dele). Como nunca postei no blog, aí vai:




       Paola olhava sempre a casa em frente. Parecia mais bonita que a sua, e maior. Mas para ela, não era isso o que interessava, e sim o garoto que ali vivia. Moreno, alto e marcado por uma forte característica de sua personalidade: sério.

       Toda vez que ele passava pela sua janela, a moça dava um jeito de sorrir mais ou menos descaradamente, para que ele reparasse nela. Mas nada acontecia. Aliás, a mesma coisa acontecia: ele apenas a olhava, sério e indiferente, e continuava o seu caminho. O garoto adorava coletes e calças de guerra, tinha um alargador enorme na orelha esquerda, e outro de tamanho razoável na orelha direita.

       Um dia Paola decidiu que iria falar com ele, a fim de dizer tudo o que estava encurralado em sua garganta: que tinha se apaixonado desde o primeiro dia que ela o viu, meses atrás, quando ele e sua família se mudaram para essa rua. Andou pouco, só dez passos curtos até a casa do garoto. E fez a mesma coisa durante três dias seguidos.

       No primeiro dia, quem atendeu foi sua mãe. Magra, bonita, e alta, a recebeu com um sorriso:
       - Você me parece familiar. Mora por aqui?
       - Moro na casa em frente – disse Paola.
       - Ah – o sorriso apagou-se um pouco, tornando-se meio gozador. – Com quem desejas falar?
       - Então, eu queria falar com o garoto sério que mora aqui. Acho que é seu filho.
       - Não há nenhum garoto sério morando aqui. – e fechou a porta. “Como não?” Pensou a garota. “Eu sempre o vejo entrando por essa porta. Essa mulher está de gozação comigo...”

       No segundo dia, ela precisou bater cinco vezes na campanhinha, até que um idoso abriu a porta:
       - Quem é você? Desculpe-me, mas minha visão já não é das melhores. Não te reconheço.
       - É, acho que o senhor não me conhece. Eu moro na casa em frente.
       - Na casa em frente? – ele gargalhou.
       - É. E eu queria falar com o garoto sério que mora aqui.
       - Não há nenhum garoto sério aqui não, menininha. – e assim como a mãe, bateu a porta da casa na cara da garota que, inconformada, decidiu tentar até que o próprio rapaz abrisse a porta.

       No terceiro dia, o rapaz atendeu. Olhou-a daquele mesmo jeito sério. A menina falou tudo de uma vez para que não desistisse:
       - Olha, eu posso estar parecendo uma louca por estar dizendo todas essas coisas, mas é que eu sempre te vejo passando e sinto umas coisas estranhas. Não sei, mas mesmo sem te conhecer, acho que me apaixonei por você. Se não é isso, eu não sei o que é.

       O garoto olhou-a de baixo para cima, até chegar a seus olhos, tentando encontrar alguma coisa. Mas não como quem procurava um sentimento, e sim como um psiquiatra analisando um louco. Então disse:
       - Você acha mesmo que eu sou um garoto? – suspendeu a blusa, revelando um quadril totalmente desenhado, na curva mais perfeita que uma mulher poderia ter, mas que não compensa nem um pouco sua falta de seios – Ou vai querer que eu abaixe as calças para poder acreditar?

       Branca Paola foi até a casa do “garoto”, e vermelha voltou. Foi um dos momentos mais humilhantes que já viveu. Envergonhada demais para falar com seu pai que acabara de chegar do trabalho mais cedo do que de costume, subiu até o seu quarto e trancou-se. Ali mesma, jurou nunca mais olhar para a casa em frente.

14 comentários:

  1. Eu acho que eu também me trancaria no quarto e colocaria um blackout na janela.
    Então quer dizer que a menina do seu conto se apaixonou por Maria Gadú?
    kkk Muito bom o conto.
    Beijos.

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  2. Adorei o conto e parabéns por ter ganho o projeto, mais que merecido.
    Bjs!

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  3. Olá!
    Gostei muito do teu espaço, e estou segundo – te!

    “ Pois o que realmente importa é a observação, sem ela o olhar perde a graça...”

    Um abraço, Rafah – Blog Eternus!
    http://eternizadoempalavras.blogspot.com/

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  4. Um engano e uma frustração das grandes, mas como escapar dessas coisas?

    Beijo, menina.

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  5. pois disso eu não sei, só sei que enerva -.-
    sigo-te <3

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  6. nossa! muito bom este conto e parabéns por ter ganhado o 1º lugar! você mereceu.
    gostei do banner do blog, muito legal.

    comenta la no meu:
    http://errosxacertos.blogspot.com/

    beijos!

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  7. Poxa, que situação!!!
    Eu achei mega criativo :)

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  8. Que mico! E que história envolvente e totalmente diferente. Amei sua criatividade e com certeza valeu o prêmio.

    BeijooO*

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  9. Elisa, parabéns pela criatividade e pelo prêmio que recebeste por este conto. Vi que a senhorita também compõe música. Novamente, parabéns. Vou conhecendo o seu Blog e pensando na pergunta que tu deixaste lá no Folhas...sobre ser poeta...e o a boa pessoa que era o Fernando Pessoa. Bom final de semana.

    Abraço

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  10. Oi.. obrigado pela visita no meu blog. Gostei do texto. gostaria de sua opnião em um texto no blog. Se chama "Durante Uma Festa". bjo vlw

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  11. você tem muito dom e talento, esse concurso concerteza foi um de muitos que você vai ganhar e que merece parabéns ^^

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  12. Interessante...
    Gostei do enredo. E você soube usar bem as alegorias. Parabéns!
    E obrigado por ter passado em meu blog.
    Um grande abraço!

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  13. HAHA! Uma leitura leve, tão envolvente e que me despertou a curiosidade! O desfecho? Inusitado! rs Parabens, belo trabalho, garota!
    Um bj.

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  14. Oi Elisa!!
    Caramba, fazia tempo que uma história não me surpreendia assim, mandou muito bem... curti demais. Faça mais assim. ;D
    Bjuss

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